quinta-feira, 3 de janeiro de 2008

Coisas escolhidas e coisas que aparecem

O corpo é colocado em uma condição : estar com um maçã na boca, de calcinha, sutien e salto alto.
Aparecem então experiências, memórias, desejos, sensações desse corpo, que transitam, passam, em um fluxo incessante de imagens.
As coisas que acontecem nesse momento e que já aconteceram na trajetória do trabalho passam por ali. Constroem-se e diluem-se formas. Os elementos utilizados na cena acessam lugares já experimentados ou completamente novos para o corpo, que lida ao mesmo tempo com memória e experiências desse instante já.
A condição em que esse corpo se encontra torna presente o corpo feminino, coisas que já sabemos sobre isso e coisas que estão aparecendo agora e torna possíveis novas formulações de idéias. Gera-se então conhecimento, a medida que materializam-se presenças, mas também ausências, coisas que estão ainda para se organizar.
A cena sofre interferências, atua e recebe informações do espaço e do tempo em que a obra acontece. O corpo constrói a cena ao mesmo tempo em que é construído pela cena, ou seja, a presença desse corpo, ou o que ele, de alguma forma já conhece, constrói uma cena, um lugar, um ambiente. Este ambiente atua no corpo, o público atua no corpo, por isto, o corpo torna-se também cena, lugar em que coisas acontecem. O intérprete observa o que acontece, não conhece e não tem controle absoluto do que vai se passar por ali. O intérprete escuta o corpo, escuta o que percebe como espaço interno e como espaço externo, escuta o que pode se organizar naquele momento e escuta o que é necessário comunicar.


O trabalho foi construído nesse atrito; sofrendo interferência de obras de arte, do público, dos colaboradores e das experiências como intérprete, em cena e no cotidiano. Algumas coisas escolhidas e outras que aparecem.

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